19/08/2008
Postal de Verão do El País
A minha aldeia tem dois rios, um chama-se Almonda, o outro Tajo, ou Tejo, conforme se olhe de Portugal ou de Espanha. Os dois rios tiveram melhores dias, mas apesar de todas as malfeitorias que sobre eles recaíram e neles se fizeram continuam a dar personalidade a Azinhaga, a aldeia ribatejana onde nasci e a que volto sempre.
17/08/2008
O escritor José Manuel Mendes oferece cem livros à Biblioteca da Fundação José Saramago, em Azinhaga
Vamos longe. José Manuel Mendes, o amigo, o poeta, o ficcionista, o presidente de Associação Portuguesa de Escritores, acaba de oferecer-nos, da sua biblioteca pessoal e destinada à nossa Delegação de Azinhaga, uma notável colecção de obras de poesia e prosa de autores portugueses e estrangeiros.
14/08/2008
A Delegação Local da Fundação José Saramago – Azinhaga – de portas abertas
As visitas sucedem-se, sejam de crianças e jovens sedentos de aceder aos computadores e às viagens virtuais que ali se iniciam, sejam de adultos que, movidos pela vontade de conhecer aquele espaço aprazível ou um pouco mais sobre o homem e sobre a obra, sobem ao primeiro andar e ali contactam com imagens, com a arca das favas, com recortes de jornais ou com a cama dos avós de José Saramago.
12/08/2008
Morreu Mahmoud Darwish
Morreu o poeta palestiniano Mahmoud Darwish, vítima de complicações durante uma cirurgia cardíaca realizada em Houston, EUA. Desapareceu assim «o maior poeta do mundo», segundo as palavras de José Saramago, profundamente emocionado com o desaparecimento de um seu amigo, «um homem cheio de coragem e com uma ética absolutamente impressionante», e «o pioneiro do projecto cultural palestiniano moderno» segundo Mahmoud Abbas, presidente palestiniano..
José Saramago terminou um novo livro. Chama-se A viagem do elefante.
Queridas amigas, queridos amigos,
Escrevê-lo não foi um passeio ao campo: Saramago lançou-se a esta tarefa quando estava incubando uma doença que tardou meses a deixar-se identificar e que acabou por manifestar-se com uma virulência tal que nos fez temer pela sua vida. Ele próprio, no hospital, chegou a duvidar que pudesse terminar o livro. Não obstante, sete meses depois, Saramago, restabelecido e com novas energias, pôs o ponto final numa narração que a ele não lhe parece romance, mas conto, o qual descreve a viagem, ao mesmo tempo épica, prosaica e jovial, de um elefante asiático chamado Salomão, que, no século XVI, por alguns caprichos reais e absurdos desígnios teve de percorrer mais de metade da Europa.
A viagem do elefante é um livro coral onde as personagens entram, saem e se renovam de acordo com as peculiares exigências narrativas que o autor se impôs e lhes impôs. O elefante e o seu cornaca têm nome, como outras personagens que figuram nos manuais de história, embora apareçam também pessoas anónimas, gente com quem os membros da caravana se vão cruzando e com quem partilham perplexidades, esforços, ou a harmoniosa alegria de um tecto depois de tantas noites dormidas à intempérie.
Apesar de não se tratar de um livro volumoso, andará pelas 240 páginas, poderemos reconhecer nelas a imaginação de Saramago, a compaixão solidária, esse sentimento que, sendo expressado literariamente, é sobretudo humano. Ele atravessa toda a obra, distingue-a e significa-a. Encontraremos igualmente o humor que o escritor emprega para salvar-se a si mesmo e para que o leitor possa penetrar no labirinto de humanidades em conflito sem ter de abjurar da sua condição indagadora de humano e leitor. Como sempre, encontrar-nos-emos com a ironia, o sarcasmo, a beleza em estado puro, a responsabilidade de escrever, a felicidade de ter escrito.
Saramago oferece-nos um novo livro. Que não é um livro histórico, embora trate de algo que está na história, ou, para ser mais rigoroso, na pequena história, embora intervenham personagens que tiveram vida real e que agora voltam a ter nova ocasião ao pôr-se a conviver com outras procedentes da imaginação do escritor e, todos juntos, habitar as mesmas páginas, ainda que nem sempre as mesmas peripécias. Quando lerdes o livro sabereis a que me refiro. A viagem do elefante está pontuado de acordo com as regras de Saramago, os diálogos intercalam-se na narração, um todo que o leitor tem de organizar de acordo com a sua própria respiração. O leitor, esse ser fundamental que Saramago considera e respeita e a quem continuamente interpela, seja adiantando-lhe consequências de certos actos ou recordando-lhe outros, implicando-o no texto, porque escrever, como ler, não são acções inocentes, são tentativas para forçar a inteligência a ir um pouco mais longe, mais além de Viena, de Valladolid ou de Lisboa, mais além do que éramos ao acordar de manhã e encontrar-nos com mais um dia pela frente.
Queridas amigas, queridos amigos, com estas linhas apenas pretendi dar a notícia de que vamos ter um novo livro de Saramago para incorporar na nossa vida de leitores. Não vos decepcionará, pelo contrário, ireis lê-lo, estou certa, com a mesma emoção com que foi escrito e sobrevooa cada linha, cada palavra. Não é um livro mais, é o livro que estávamos esperando e que chegou a bom porto, o leitor. Salomão, o elefante, não teve tanta sorte, mas disso não falarei, aguardemos o Outono, e então sim: aí, em vários idiomas simultaneamente, poderemos comentar páginas, aventuras, desenlaces. Os materiais da ficção, que são também os da vida.
A todos, um abraço e felicidades.
Pilar