A sessão de evocação da obra e da figura de Jorge de Sena, realizada no Teatro de S. Carlos em 10 de Julho de 2008, teve um título que a esta distância facilmente parecerá premonitório: Jorge de Sena – Um regresso. Para falar do autor de “Sinais de Fogo” reunimos ali, além de um representante da Fundação, para o caso o seu patrono, algumas das pessoas mais qualificadas do pensamento literário e crítico português: Eduardo Lourenço, Vítor Aguiar e Silva, Jorge Fazenda Lourenço e António Mega Ferreira, cujas participações contaram com a inteligente moderação do ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro. A sala do S. Carlos estava cheia até às torrinhas, o que mostra que a premonição, se o era, estava a ser partilhada por umas quantas centenas de pessoas. Houve leitura de poemas por Jorge Vaz de Carvalho e o pianista António Rosado interpretou composições sobre as quais Sena havia escrito. Quem esteve lá não esquecerá nunca. No final a Fundação ofereceu a cada um dos participantes um estojo com chaves: as que deveriam abrir as portas necessárias para que Jorge de Sena regressasse definitivamente ao seu país. Não, não foi premonição. Simplesmente, o que tem de ser, tem de ser e tem muita força. A força de todas aquelas pessoas, quase um milhar, unidas no mesmo pensamento: que volte Jorge de Sena, que volte já. Voltou, enfim. Não sei se ficámos mais ricos. Mais conscientes das nossas responsabilidades, sim. Poucas coisas agradariam tanto a Jorge de Sena.
José Saramago
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A sessão de evocação da obra e da figura de Jorge de Sena, realizada no Teatro de S. Carlos em 10 de Julho de 2008, teve um título que a esta distância facilmente parecerá premonitório: Jorge de Sena – Um regresso. Para falar do autor de “Sinais de Fogo” reunimos ali, além de um representante da Fundação, para o caso o seu patrono, algumas das pessoas mais qualificadas do pensamento literário e crítico português: Eduardo Lourenço, Vítor Aguiar e Silva, Jorge Fazenda Lourenço e António Mega Ferreira, cujas participações contaram com a inteligente moderação do ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro. A sala do S. Carlos estava cheia até às torrinhas, o que mostra que a premonição, se o era, estava a ser partilhada por umas quantas centenas de pessoas. Houve leitura de poemas por Jorge Vaz de Carvalho e o pianista António Rosado interpretou composições sobre as quais Sena havia escrito. Quem esteve lá não esquecerá nunca. No final a Fundação ofereceu a cada um dos participantes um estojo com chaves: as que deveriam abrir as portas necessárias para que Jorge de Sena regressasse definitivamente ao seu país. Não, não foi premonição. Simplesmente, o que tem de ser, tem de ser e tem muita força. A força de todas aquelas pessoas, quase um milhar, unidas no mesmo pensamento: que volte Jorge de Sena, que volte já. Voltou, enfim. Não sei se ficámos mais ricos. Mais conscientes das nossas responsabilidades, sim. Poucas coisas agradariam tanto a Jorge de Sena.
Querida Mécia,
Hoje não é um dia triste, por fim, tantos anos depois, a vontade de seu marido pôde ser cumprida e, embora saibamos que a separação, ele aqui, a Mécia em Santa Bárbara, será dor sobre dor, a satisfação do dever cumprido acabará convertendo-se em serena alegria, a que queremos viver consigo, que tanto ama por haver amado tanto. O seu companheiro de toda a vida, o homem com quem dançou uma tarde e a quem disse que não dançava com desconhecidos, sem saber que os escritores se dão a conhecer imediatamente, porque manejam as palavras e as introduzem no nosso coração para sempre, esse homem, querida Mécia, voltou à terra que sentia com desespero, e agora, todos os que sabemos o que Portugal era para ele respiramos mais fundo, como se partilhássemos um verso ou um afã, ou talvez esse desejo de transformar que os poetas semeiam.
Nós, querida Mécia, hoje, neste lado do Atlântico, somos a sua colheita, aprendemos de Jorge de Sena e admiramos o trabalho constante, quotidiano, imortal que a Mécia realiza para que não nos esqueçamos de quem nunca esqueceu nem a sua humanidade, nem o seu idioma, nem a sua cultura.
Obrigado, Mécia, pelo seu desmedido amor. E por ter-nos feito chegar a este dia, que na Fundação José Saramago consideramos principal e nosso. Por isso lhe agradecemos os seus desvelos e a sua pertinácia. Como agradecemos à Fundação Gulbenkian que guardará papéis que agora poderemos ver na Biblioteca Nacional, ou ao ministério da Cultura, ao ministro, que tenha aberto as portas necessárias para que os restos de Jorge de Sena estejam no Cemitério dos Prazeres, tão perto da sua casa, tão perto do rio, tão intimamente unido à forma de estar no mundo que o fez ser o homem que foi, ainda que por sê-lo tivesse que atravessar exílios e nacionalidades.
Querida Mécia, partilhamos consigo os sentimentos contraditórios deste dia, partilhe também connosco, com a Fundação José Saramago, a satisfação e a saudade. Hoje todos somos um pouco Jorge de Sena, mas também somos Mécia de Sena, a Mécia que não se rendeu e a quem, por isso mesmo, prestamos dever de gratidão. Emocionadamente.
Em nome de todos, beijos, muito beijos fraternais.
Pilar del Río
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Querida Mécia,
Hoje não é um dia triste, por fim, tantos anos depois, a vontade de seu marido pôde ser cumprida e, embora saibamos que a separação, ele aqui, a Mécia em Santa Bárbara, será dor sobre dor, a satisfação do dever cumprido acabará convertendo-se em serena alegria, a que queremos viver consigo, que tanto ama por haver amado tanto. O seu companheiro de toda a vida, o homem com quem dançou uma tarde e a quem disse que não dançava com desconhecidos, sem saber que os escritores se dão a conhecer imediatamente, porque manejam as palavras e as introduzem no nosso coração para sempre, esse homem, querida Mécia, voltou à terra que sentia com desespero, e agora, todos os que sabemos o que Portugal era para ele respiramos mais fundo, como se partilhássemos um verso ou um afã, ou talvez esse desejo de transformar que os poetas semeiam.
Nós, querida Mécia, hoje, neste lado do Atlântico, somos a sua colheita, aprendemos de Jorge de Sena e admiramos o trabalho constante, quotidiano, imortal que a Mécia realiza para que não nos esqueçamos de quem nunca esqueceu nem a sua humanidade, nem o seu idioma, nem a sua cultura.
Obrigado, Mécia, pelo seu desmedido amor. E por ter-nos feito chegar a este dia, que na Fundação José Saramago consideramos principal e nosso. Por isso lhe agradecemos os seus desvelos e a sua pertinácia. Como agradecemos à Fundação Gulbenkian que guardará papéis que agora poderemos ver na Biblioteca Nacional, ou ao ministério da Cultura, ao ministro, que tenha aberto as portas necessárias para que os restos de Jorge de Sena estejam no Cemitério dos Prazeres, tão perto da sua casa, tão perto do rio, tão intimamente unido à forma de estar no mundo que o fez ser o homem que foi, ainda que por sê-lo tivesse que atravessar exílios e nacionalidades.
Querida Mécia, partilhamos consigo os sentimentos contraditórios deste dia, partilhe também connosco, com a Fundação José Saramago, a satisfação e a saudade. Hoje todos somos um pouco Jorge de Sena, mas também somos Mécia de Sena, a Mécia que não se rendeu e a quem, por isso mesmo, prestamos dever de gratidão. Emocionadamente.
Em nome de todos, beijos, muito beijos fraternais.
Pilar del Río
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Saúdo-vos, agradeço-vos e dou-vos os parabéns por terem vindo.
Permitam-me que saúde especialmente
José Saramago,
Eduardo Lourenço,
António Mega Ferreira,
Vítor Aguiar e Silva,
Jorge Fazenda Lourenço,
Jorge Vaz de Carvalho.
Envio uma saudação à distância para Mécia de Sena, outra para Pilar del Rio aqui presente.
A obra de Sena é uma celebração da língua e cultura portuguesas, apenas possível pelo distanciamento crítico que o seu exílio veio acentuar.
É fundamental respeitar e admirar o esforço desenvolvido pela sua viúva, Mécia de Sena, para assegurar a perenidade de Sena e divulgação de todo o espólio que Sena nos legou.
Mas é também fundamental proporcionar a esse legado um tratamento condigno, permitindo a difusão e o estudo de toda a obra de Sena em círculos cada vez mais alargados.
Esta iniciativa da Fundação Saramago será certamente uma das muitas e necessárias iniciativas que permitirão recuperar gradualmente a obra de Sena, de modo a que todos a púnhamos no lugar superior que lhe cabe na Literatura de Língua Portuguesa e na memória de cada um de nós.
Associei-me, também por isso, a esta iniciativa da Fundação agradecendo aos seus responsáveis esta justa homenagem a Jorge de Sena.
Porque, como Mécia de Sena me referiu há poucos dias, «a justiça também se agradece!»
«A língua é mais forte do que o sangue», escreveu Franz Rosenzweig, e com isso afirmou a essencialidade de uma pertença mesmo quando nos recusaram ou recusamos.
Jorge de Sena é um dos escritores, um dos pensadores, como Eduardo Lourenço ou José Saramago, é um dos portugueses do século XX, que de forma mais absoluta e indómita exprime essa contradição, a de se nascer e ser-se português durante grande parte desse século XX. A contradição entre ser-se desta pátria que é a língua portuguesa e ter-se, em consciência, de recusar a pátria, a contradição entre ser-se no seu seio nascido, ser-se por ela assim escolhido, e felizmente escolhido, como se descobre ao descobrir a liberdade e se construir a identidade em português, à medida que se aprende a ser e a sentir, a falar, a ler e a escrever nesta nossa pátria que é, repito e abuso, a língua portuguesa, e descobrir-se também, inescapavelmente, e à medida que se vai sendo e crescendo, que, para se ser tão livre, íntegro e desassombrado, como esta língua é e a alguns faz, a pátria portuguesa se tem de tornar um lugar de recusa, o lugar de exílio, primeiro interior e depois exterior, no que para Sena desde cedo se tornou e continuou sendo mesmo quando já não era admissível e era totalmente injusto que o fosse ainda.
Tudo farei por isso, para que lhe restituamos também a ele a pátria de que foi privado, para que reparemos essa injustiça que fizemos ao Jorge de Sena e ainda a que do mesmo passo fizemos e fazemos a todos os Portugueses que do Sena foram e são privados.
Assim, proponho-me a fazer o que estiver ao meu alcance, tudo tentarei e farei mas não posso garantir ter êxito, para trazer Jorge de Sena de regresso a Portugal, trazê-lo a ele e ao seu espólio e o que mais a Senhora D.ª Mécia de Sena nos quiser entregar e queira confiar à Biblioteca Nacional de Portugal, para que aí se preserve, se analise, se comente e digitalize e divulgue.
Concluo, manifestando o meu profundo agradecimento a Jorge de Sena, pela sua obra e por ter sido quem foi.
José António Pinto Ribeiro
(Texto lido na sessão Jorge de Sena, um regresso, promovida pela Fundação José Saramago no Teatro Nacional de S. Carlos, no dia 10 de Julho de 2008)
Jorge de Sena nació en Lisboa el 2/11/1919 y murió en Santa Bárbara (U.S.A.) el 4/5/1978. Estudió Ingeniería en Oporto y ejerció con posterioridad esta profesión durante varios años alternándola con su actividad literaria. Durante esa etapa colaboró en revistas tan importantes como Arvore, Presença, Unicornio, Seara Nova y Cuadernos de Poesía en su segunda época de 1951 a 1952. En el año 1959 abandona su trabajo y su país (se exilia según escribe él mismo en el prefacio a su Tomo 1 de poesía)). Vive en el Brasil donde se dedica a la docencia universitaria y se doctora en Letras. Allí adquiere la nacionalidad brasileña. En el año 1965 se traslada a los Estados Unidos de Norteamérica. En la Universidad de Santa Bárbara, en California, fue durante muchos años Director del Departamento de Portugués y Español.
Jorge de Sena además de su actividad poética, cultivó también la narrativa, el teatro y densísimamente la crítica y el ensayismo. De esta última faceta, algunos de sus trabajos más destacados son los que dedicó a Fernando Pessoa (tradujo, anotó y prologó los Poemas ingleses), Camões (especialmente a Os Lusíadas), Teixeira de Pascoaes y otros numerosos libros y antologías sobre la poesía portuguesa. También, Jorge de Sena, dedicó numerosos estudios a la literatura de lengua inglesa, a T.S. Eliot, Emily Dickinson y Edith Sitwell, de manera particular además de otros trabajos de tipo colectivo.
Jorge de Sena y la poesía portuguesa
La tríada formada por los poetas Cesario Verde, António Nobre y Camilo Pessanha, sería el antecedente renovador de la lírica portuguesa que tendría su máxima fructificación en la extraordinaria obra de Fernando Pessoa y sus numerosos heterónimos. La obra de Cesario Verde (hasta 1901 no fue publicada) rompe con la retórica decimonónica. Los heterónimos Alberto Caeiro, Áivaro de Campos y Bernardo Soares en el Livro do Desassossego, se confiesan deudores de este poeta que nacido en 1855, en Lisboa, fallece a temprana edad en el año 1886. António Nobre (1867-1903) representó la nostalgia, la saudade por un mundo rural a punto de extinguirse. Camilo Pessanha (1867-1926) fue el máximo representante de la corriente simbolista en Portugal. Clépsidra fue publicada en 1920, aunque algunos de sus poemas ya habían aparecido en revistas de la Metrópoli. João de Castro Osório reunió poemas dictados de memoria por el propio Pessanha durante la última estancia en Portugal en 1915/16 (vivía en Macao) y otros desperdigados, construyendo este poemario.
Tras el saudosismo representado por Teixeira de Pascoaes (poeta que tuvo mucha relación e influencia en la cultura gallega) que desarrollaba un misticismo panteísta y que tuvo como órgano de expresión a la revista A Aguia; y el paulismo de Fernando Pessoa, «una estética basada en un conjunto de ideas vagas, sutiles y complejas», surge el modernismo. Éste tiene un contenido y unas intenciones diferentes a como fue en nuestra literatura, estando vinculado a los movimientos vanguardistas. Corre el año 1915 y están en la calle los dos únicos números de la revista Orpheu donde se publican poemas de Mário Sá Carneiro y fundamentalmente, «Opiario», la «Oda Triunfal», y la «Oda Marítima» de Álvaro de Campos; «La Chuva oblíqua» y el «Drama estático en un cuadro», O Marinheiro, del mismo Fernando Pessoa. Para Tereza Coelho Lopes (que preparó una edición crítica de Clepsidra), Pessanha fue el precursor de muchos de los aspectos de la estética modernista, desde el interseccionismo (entrecruzamiento de planos diversos, las dicotomías) que Pessoa practicó en Chuva oblíqua, hasta la problemática de la ruptura del yo. Tras Pessoa (1885-1935) (cuya obra quedó prácticamente inédita hasta que en 1942 y gracias al grupo de la revista Presença comenzó a adquirir su verdadera dimensión), Mario Sá Carneiro (1890-1915) y Almada Negreiros (1893-1970) y a través de ellos la vanguardia, surge el grupo de Presença. Estaba encabezado por José Regio, Miguel Torga y Casais Monteiro. Este último fue el teórico de cierto informalismo. Para Casais tenía que precaverse contra la belleza mediante el recurso a la máxima informalidad. Jorge de Sena habría de seguir esta senda en algunas fases de su amplia obra poética que lo condujo a un cierto prosaísmo bastante peligroso.
Las experiencias de la poesía concreta por parte de Vitormo Nemesio y cierto neorrealismo marginado de Presença, nos hacen llegar hasta Jorge de Sena quien a todas estas experiencias y vivencias literarias añadiría la surrealista, muy floreciente en las últimas décadas de los años cuarenta. Esta tendencia sería reelaborada por poetas tan interesantes como Mário Cesariny de Vasconcelos, Alexandre O’Neill, etcétera, y con posterioridad retomada por un poeta importantísimo, Herberro Helder.
Durante la década de 1940 aparecen dos libros de Jorge de Sena, Perseguição (1942) y Coroa da Terra (1946). En ambos hay una búsqueda de una nueva expresión sintáctica bañada por cierto surrealismo. Pero también una profunda preocupación existencial. Perseguição, según su propio autor, fue un libro largamente ignorado, «era el libro de un joven poeta, lo que, en aquellos tiempos, al contrario de hoy, raramente merecía una especial atención de la crítica. Era un lenguaje totalmente distinto, una indagación de una escritura diversa como reconoció más tarde Casais Monteiro.» El libro se publicó como una edición de la revista Cuadernos de Poesía habiendo sido pagado por los poetas fundadores de esta publicación, José Blanc, Ruy Cinatty y Tomás Kim. Sobre ellos escribiría el propio Jorge de Sena en 1977: «los dos primeros son los mayores poetas portugueses de este siglo, todavía no reconocidos como tales, y el último un excepcional poeta, precursor de cierta manera de neorrealismo que nunca lo reconoció, y hoy está olvidado de todos. Tres libros más, Pedra filosofal, As evidéncias y Fidelidade completarían los poemarios de su etapa portuguesa.
Para António José Saraiva, Jorge de Sena en esa exuberancia superficial de su poesía revela la necesidad de una afirmación, «pero bajo tal necesidad se oculta una radical inseguridad. La ambigüedad que tantas veces manifiesta, ese alternar el sarcasmo con la entrega, corresponden a una indeterminación involuntaria, muy distinta de la irónica y artística despersonalización de Pessoa.» Otro crítico como Fernando Guimaraes afirma que en la obra de este poeta hay un equilibrio entre los poderes de la palabra o la imagen y la fidelidad a lo social, «si bien tal encuentro sólo tendría lugar más allá de una inmediata expresión de lo humano tan utilizada por el grupo de la revista Presença y los neorrealistas del Novo Cancioneiro», Coroa da terra, reflejaba la angustia de los años de la guerra y las preocupaciones socio-políticas. El surrealismo continúa presente (como lo estará en toda su obra poética) pero se hace más fuerte en Pedra filosofal, mezclado aquí con cierto neorrealismo. Los 21 sonetos de As evidéncias fueron publicados en la colección Cancionero General del Centro Bibliográfico. El libro estaba impreso en enero de 1955 cuando la PIDE asaltó dicho Centro e impidió su distribución hasta varias semanas después en que fue permitido por la censura.
Metamorfoses, los Quatro sonetos a Afrodite Anadiómena y Arte de música son otros libros posteriores en donde adquiere la plenitud. Fueron escritos en Brasil y los Estados Unidos (aunque parte de los poemas de Metamorfoses fueran anotados en Portugal).
La obra poética de Jorge de Sena se completa con otros libros tan importantes como Peregrinatio ad loca infecta, Exorcismos, Conheço o sal o la colección de ocho poemas largos, Sobre esta praia. Jorge de Sena, en todos ellos, se apoya en diferentes manifestaciones literarias y artísticas, de todos los tiempos, para reflexionar a través de las mismas. También es importante su relación con el paisaje y los lugares geográficos. En Jorge de Sena es de suma importancia la sensación del instante y toda la carga de sugerencia que personal y culturalmente le provoca. Los poemas de Sobre esta praia marcan la reflexión final, la visión corporal y espiritual de la madurez ante los cuerpos y las nuevas relaciones personales de las más jóvenes generadones.
En este breve retrato, no quisiera dejar de incluir cómo el propio autor se veía a sí mismo. Para ello he elegido los siguientes fragmentos. Los tres primeros corresponden al pessoano O poeta é um fingidor (Ediçoes Atica, Lisboa, 1961. Respectivamente, págs. 13, 18-19 y 24). El cuarto y último pertenecen a Trinta Anos de Poesia (Editorial Inova Sarl, Porto, 1972, pág. 17). «Una obra literaria asciende al dominio de la creación poética si vivencias, circunstancias, recurrencias lingüísticas, temáticas o tópicas, si pensamientos, si ritmos, si peculiaridades personales aparecen fundidos en un todo cuya comprensión no se obtiene sin degustarlo y cuyo disfrute no se justifica sin comprenderlo». «La sinceridad de la creación poética no es nunca el fruto de la convicción momentánea con que nos queremos, cada uno en su sitio, personas de confianza. No: es, al contrario, precisamente la facultad de asumir dramáticamente las consecuencias de la propia sinceridad, y es la ciencia de reconocer en el ritmo una sinceridad imposible, porque la verdad es siempre otra. Casi podría decirse que al prejuicio de la sinceridad corresponde un receloso limitar el secreto análisis con que el poeta, como hombre que es, se conoce interminable.» «La verdad en poesía, aquella verdad no perturbada por los factores ocasionales, y aquella verdad que es visión, resultará de la elisión de la antinomia “verdadero-falso”.
Elisión que habrá de procesarse mediante un ir más allá del “en-sí” del poeta, al cual tradicionalmente se identificaba la esencia de la poesía que el poeta materializaba, existenciaba objetivamente.» Y «un poema es, sin duda, un objeto estético, pero cargado para mí de una inmediatez (aunque ésta sea resultado de un largo proceso de maduración interior) que sólo una visión no histórica de la vida humana podrá intentar suprimir mediante la revisión “intemporal”. Pero tal vez yo tenga una concepción excesivamente dadaísta y surrealista de la creación poética, al mismo tiempo que una, sin “tal vez”, filosofía dialécticamente histórico-política, ambas claras y subyacentes (en su obra).»
César Antonio Molina
1 Este texto pertenece al prólogo de una Antología que sobre el autor de Metamorfosis está publicada en Olifante. Zaragoza, 1989.
Começarei com uma pergunta retórica: pode alguém que decidiu exilar-se, isto é, estabelecer-se longe do seu país de origem, mesmo assim conservar, aprofundar, consolidar os laços que o ligam à terra que deixou? De que maneira é que o exílio, a ausência inultrapassável, o corte físico, vivencial, quotidiano, contribui para afinar o olhar e fazer ver melhor o que é – e como é – o seu lugar de origem?
Felizmente, o século XX português deu-nos alguns exemplos que valem como resposta afirmativa à pergunta – alguns deles, deo gratias, prolongando-se para o século XXI. Jorge de Sena é um desses exemplos felizes. Porque ele é todo um caso, na forma tão singular como foi português, não por fatalidade ou com indiferença, mas com a energia e o talento das suas diversas maneiras de ser e de se exprimir. Foi desesperadamente português, sem desfalecimento nem complacência. E nem sequer se poupou, a si, o exilado, a essa sistemática exploração das falhas por onde se insinua um sentimento vago, possivelmente indefinível, que é o sabermos que não podíamos ter sido outra coisa, sem, bem feitas as contas, sabermos porquê. Ele quis sempre saber porquê, por si e por nós; e ajudou-nos a tentar perceber o porquê desse porquê.
Agente de uma certa ideia do amor (“só não é belo o que se não deseja ou o que ao nosso desejo mal responde”) e da liberdade (“o resistir a tudo o que pretende diminuir-nos ou confinar-nos”), Jorge de Sena foi acima de tudo um agitador das ideias feitas, um corsário das palavras, um salteador de tesouros escondidos na nossa alma. Foi um fora-da-lei da consciência portuguesa do século XX, se é que a metáfora judiciária não o diminui aos vossos olhos; aos meus, pelo contrário, é no desassossego que ela conota que o sinto mais português e mais contemporâneo. Por isso, desde 1948 viu em Fernando Pessoa “um indisciplinador de almas”; por isso fez de Camões, o “seu” Camões, o mediador da aventura que é o seu constante diálogo com a pátria.
Em 10 de Junho de 1977, um ano antes de morrer, Jorge de Sena discursou na Guarda, nas comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas – que, convém lembrá-lo, é assim que se chama, desde o 25 de Abril, o dia 10 de Junho. Esse discurso é um testamento espiritual, que coloca esta dupla relação (a sua com Portugal, a sua com o seu Camões) no centro de uma reflexão que ele queria serena. O Discurso da Guarda é um bom lugar para tomarmos o peso às suas convicções.
Sena começa por definir-se em relação a Camões e esta proposição transformar-se-á, ao longo do seu discurso, em conjunção constante, que é o que ilumina, de dentro para fora, a sua visão do Épico. Sena acha apropriado vir falar em Dia dedicado ao culto do Poeta, porque ele vê-se como o animador de “uma contínua campanha para dar a Portugal um Camões autêntico e inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, um Camões dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo”, sofrendo “em si mesmo as angústias e as dúvidas do homem moderno que não obedece a nada nem a ninguém senão à sua própria consciência”. Se não soubéssemos que falava de Camões, seríamos tentados a pensar que Jorge fala de Sena; e esta projecção de si no retrato moral de Camões que a seguir aprofunda, é uma constante do discurso, talvez porque é a forma de ele se dizer através do outro. Processo que lhe é comum: ao mesmo título, e até simetricamente, o Jorge narrador de Sinais de Fogo é, em grande parte, uma forma de se dizer, até ao limite daquilo que ele queria dizer sobre Jorge, o Sena, evitando aquilo que ele não queria de si dizer aos outros.
Antes de abordar o Poeta, é na figura do exilado que Sena se concentra: anota a coincidência de mais ou menos dezoito anos terem decorrido em que Camões esteve fora do país – tal como com ele acontecia, que partira em 1959 e estava agora a falar em Portugal em 1977. Com uma diferença: “Eu nem estou a regressar, nem tenho Lusíadas nenhuns”. Ora, para Sena, esta diferença não era divergência de um destino comum. Pela sua fidelidade a Portugal, Sena afirma-se tão português como Camões, porque essa fidelidade “nunca me permitiu livrar-me de partilhar (acrescentadas da dor da distância) as dores e as alegrias, os desalentos e as esperanças de Portugal.” Haverá que prestar orelha fina a esta fórmula tão subtilmente sofrida de reivindicar a sua condição de português: condição de que não se conseguiu livrar, apesar da distância, imersão solidária nas dores e alegrias, nos desalentos e esperanças da Pátria distante. Por isso, rejeita, com a energia verbal que era seu timbre, o apodo de luso-americano que alguns lhe queriam colar. Exilado como Camões, ele é tão português como o seu referente de portugalidade. E a sua legitimidade advém-lhe de uma óbvia verificação: “um país não é só a terra com que se identifica e a gente que vive e nasce nela, porque um país é isso mais a irradiação secular da humanidade que exportou”.
Verificados os títulos de portugalidade, o que é Camões, para Sena? Ele é, em primeiro lugar, “exemplo de ser-se português, em exílios e trabalhos, em sofrer incompreensões e injustiças”; mas é, também, “como ninguém, o homem que viajou, viu e aprendeu”. Este “exemplo de ser-se português” tem tudo a ver com a capacidade de resistir à arbitrariedade e à intolerância, à incompreensão e à estupidez; e não é difícil perceber que, quando escrevia sobre este Camões, que era o que ele via, Jorge de Sena escrevia também sobre si, porque não há outra forma de entender a sua reivindicação de uma fidelidade crítica à Pátria, a não ser como a orgulhosa afirmação de uma identidade que sobrevive pela tenacidade e pela independência de espírito.
Sena dá então um outro passo, a meu ver o decisivo na sua identificação com a personagem exemplar que ele constrói através de Camões: o Poeta é o paradigma do “exilado moral, clamando por justiça, por tolerância, por dedicação à pátria, por espírito de sacrifício, por unidade nacional e universal” – “como todos nós”, especifica, para rematar: “Ninguém como Camões nos representa a todos, e em particular os emigrantes, um dos quais ele foi por muitos anos, ou os exilados, outro dos quais ele foi a vida inteira, mesmo na própria pátria, sonhando sempre com um mundo melhor, menos para si mesmo que para todos os outros.”
Eu não sei se o Camões de Sena é o verdadeiro Camões, ou, até, se essa figura, assim exaltada, sequer existiu. Às vezes, quase me apetecia que fossem mais raros os vestígios da sua passagem no mundo, e que pudéssemos discutir sobre a existência de Camões nos mesmos termos em que discutimos hoje a existência de Homero. À minha maneira, Camões-mito é-me tão vital quanto o era para Sena o resultado da sua construção mental e literária. Porque o Camões de Jorge de Sena é uma arquitectura do seu espírito, nutrida pela letra da obra escrita do Poeta, mas também, por vezes sobretudo, pela grandiosidade da visão que o coloca como lugar fundador de um tempo e de uma maneira de ser português. Nesse sentido, Camões nunca existiu; e, lendo Sena, é como se ele lhe desse corpo e alma, erguendo uma personagem ficcional, que nos serve de proveito e exemplo. Porque na sua investigação exaustiva, na constância do seu regresso à obra camoniana, no diálogo permanente que sustenta com o que nos fica de Camões, Sena projecta o seu próprio desespero de não se reconhecer na Pátria, sendo porém incapaz de a rejeitar. Sena viu em Camões a pátria possível: fez dele o seu território de combate e a sua âncora de amarração ao país que deixara para trás; e reconstruiu-o como uma espécie de consciência moral a apontar o dedo a tudo o que Portugal não era.
O extraordinário Discurso da Guarda, de que aqui apenas dei nota apressada naquilo que mais me interessava, encerra com uma proclamação e com uma injunção. A proclamação é o eu de Sena que se investe na voz de um crítico deslumbrado com o objecto humano e moral da sua apreciação: “O orgulho de sentir-se alguma coisa, o inabalável sentimento de independência e de liberdade, disso ele falou, e sentiu como ninguém.” O programa é admirável: porque se da leitura de Camões nos ressaltar esse “orgulho de sentir-se alguma coisa”, tudo o resto, as sucessivas cargas históricas com que se foram investindo ao longo dos séculos as palavras deixadas por Camões, passa para um segundo ou um terceiro plano. Para Jorge de Sena, a verdade de Camões está nessa capacidade de iluminar em quem o lê “o orgulho de sentir-se alguma coisa”. Não é difícil adivinhar que foi isso, essa forma humaníssima de se dizer vivo e aberto ao mundo, o que Sena procurou em Camões – e que isso, por força do seu indesmentível génio (refiro-me agora ao de Sena), foi o que ele encontrou em Camões. Daí a injunção final: “Leiam-no e amem-no... e lendo-o e amando-o (poucos homens neste mundo tanto reclamaram amor em todos os níveis, e compreensão em todas as profundidades) – todos vós aprendereis a conhecer melhor quem sois aqui e no largo mundo, agora e sempre, e com os olhos postos na claridade deslumbrante da liberdade e da justiça”.
Refere-se a Camões, esta frase de Jorge de Sena. Mas, a mim, de cada vez que a leio, apetece-me fechar os olhos, para tentar não ver Camões – e, palavra por palavra, até nessa desesperada confissão de que “poucos homens neste mundo tanto reclamaram amor em todos os níveis, e compreensão em todas as profundidades”, só vejo o perfil de águia de Jorge de Sena. É bom estarmos hoje aqui a tentar perceber o que podemos fazer para o trazer de regresso até nós; mas, para isso, é melhor começarmos por nos perguntar o que temos de fazer para conseguirmos regressar a ele.
“Leiam-no e amem-no” é capaz de ser um bom princípio de resposta.
António Mega Ferreira
(Texto lido na sessão Jorge de Sena, um regresso, promovida pela Fundação José Saramago no Teatro Nacional de S. Carlos, no dia 10 de Julho de 2008)
Era em fins de dezembro, há trinta anos, e o sol de Lisboa ainda aquecia. Eu regressara nessa mesma manhã de uma América já em parte coberta de neve, onde, durante as últimas semanas, cm Iowa, noWisconsin, di Chicago,julguei que as minhas orelbas congeladas pelos ventos polares iam soltar—se e tombar como as folhas das árvores. Apesar da frase do Eça «não bá nada niais reles que um bom clima», não nego que no dia do regresso apreciei a brandura daquele começo de inverno lusíada, compartilhei das nossas patrióticas vaidades cm matéria climática e deu-me vontade de almoçar ao ar livre numa esplanada junto ao Tejo, uma qualquer, desde que dela se avistasse ao longe a Barra ou simplesmente cheirasse a maresia. Meti-me no comboio da Linha e apeei-mc em Santo Amaro dc Oeiras, que há muito deixara de ser a provinciana estação balnear onde veraneei pela primeira ve — com a provecta idade de dois meses — mas conservava o encanto uni tanto antiquado do que se sabe condenado, do que suavemente e sem resistência desaparece devorado pelas fúrias do «progresso».
Fui atrás dos meus passos até ao restaurante Saisa, vazio nessa época sobre a praia deserta. Vazio ou quase, porque uma das mesas estava ocupada. Reconheci o José Blanc de Portugal, então crítico musical e figura tutelar dos concertos lisboetas; e em frente dele alguém que eu jamais vira mas cuja testa alta e abaulada, cujo olhar intenso e interessado por detrás das lentes largas reconheci das fotografias: era Jorge de Sena. A vida tem destas surpresas! Enquanto ele andava pela Europa estivera eu, pouco antes, na sua casa em Madison, ‘Wisconsin, onde a proverbial hospitalidade da Mécia me imiostrara a biblioteca do marido e me tratara tão bem que me senti como se fosse o seu décimo ítllio. Agora deparava, frente a frente, com o patriarca ele mesmo, e de repente não sabia que fazer.
A minha hiperbólica admiração por Jorge de Sena aumentara, se possível, ao tblhear alguns dos muitos livros dessa biblioteca que era uni desafio à sólida ignorância dos meus vinte e tal anos. Também por isso hesitei um momento e, num tu isto de respeito e de receio, atrapalhei-me e temi urna das minhas catastróficas saídas de tímido. Os tímidos e as tímidas sabem como é: dizemos um disparate qualquer, o primeiro que nos venha à cabeça, falamos alto, gesticulamos como náufragos, começamos a suar na testa, no buço, noutros sítios. Ou ficamos calados, especados, aparvalhados, e foi o meu caso diante da curiosidade com que os dois ahuoçances me fixavam, Até que la consegui cumprimentar oJosé Blanc de Portugal, que me conhecia de vista desde que recenseara uni dos meus livros, e apresentar—me ajorge de Sena, que adivinhou o meu angustiado estado de alma e tentou pôr-me à vontade: «Sente-se, homem, almoce com a gente que eu não como ninguém!».
Agradeci e sentei-me, suspeitando que a garantia de não comer ninguém seria uma alusão à faina de intratável que a rasteira praça lisboeta lhe arranjara. Ontem como hoje, os lusos literatos confundem mau feitio com a coragem de escrever o que entre nós só se murmura pelas costas, e a verdade é que Jorge de Sena mc pareceu o mais amável dos homens. Contou-me logo que uma carta ou telefonema da Mécia o informara da minha palestra no seu departamento cm Madison — onde Casais Monteiro o substituía durante o semestre sabático — e reconvidou-me para almoçar. No paraíso dc hipocrisia dos tristes tempos que aqui vivíamos, não se aceitava um convite tão espontâneo sem que o convidante iusistissc pelo menos meia-dúzia dc vezes, e mesmo assim era de admitir que tudo não passasse de fonnalidade. Mas a minha curiosidade foi mais forte e, comnojá estava sentado, deixei—me estar.
Não recordo o que comi mas não esqueci a conversa entre os dois amigos, separados desde que Jorge de Sena se exilara e ficara nove anos fora de Portugal. Recordo bem a fleuma, a bonomia, a calma doJosé Blanc dc Portugal, não discordando senão de longe cm longe, e sempre cm tom de concórdia. Recordo o calor que o Jorge punha em tudo, os seus inflamados dons de actor, a capacidade de destacar cada palavra com nfascs da voz e gestos enormes, a sua alta oratória ao desatar a recitar perante o espanto do criado — que a Revolução dos Cravos promoveria a «empregado» — aqueles versos que as crianças de antigamente eram obrigadas a decorar:
Portugal, meu berço de inocente,
lisa estrada que andei débil infante,
variado jardim de adolescente,
meu laranjal cm flor sempre odorante,
minha tarde de amor, meu dia ardente...
E recitou até se fartar, tralari, tralará, todo aquele enxurro de lugares-comuns rimados. Uma observação do José Blanc de Portugal sobre o lado teatral da versalhada levou a conversa para o teatro quc o Exilado vira na sua recente tournée europeia e para o que ele próprio escrevera e eu não lera, excepto O Indesejado. Quando, muito mais tarde, vim a conhecer as críticas e os ensaios compilados pela Mécia em Do Teatro em Portugal, neles descobri ecos do diálogo prandial a que assisti espantado com a prodigiosa cultura dos dois dialogantes, a agilidade e o tom polémico do Jorge, a sabedoria dos comeiltários com que o seu interlocutor invocava leituras infindáveis. Diálogo tanto mais insólito quanto se passava num país de tristeza peganhenta, sobre o qualJorge dc Sena ia escrevendo Sinais de Fogo e ao qual dedicara já contos, poemas, artigos, inumeráveis cartas, além do ainda único volume de O Reino da Estupidez.
Depois do almoço tomei notas acerca do empolgante dueto, e o que se segue é uma breve evocação do que, em homenagem a ambos os poetas, me diverti a transcrever em verso:
José
Ó Jorge, quando é que você volta
a escrever teatro em verso?
Jorge
Não sei, meu caro, fiquei assustado
quando um dia me explicaram
que o modelo d’O Indesejado
era, você imagina o quê?
José
O Assassínio na Catedral?
Jorge
Antes fosse, que com esse
eu nem me importava nada.
É público e notório quanto gosto
do Eliot e da tradução que você fez.
Não, meu caro, o meu modelo
era a A Ceia dos Cardeais.
Não acha que um tal precursor
traumatizava qualquer autor?
José
Não ligue, é um disparate,
e disparates desse quilate
a gente não leva a sério.
Jorge
Diga-se de passagem
que A Ceia é bem versejada.
José
Claro que sim mas sem passar
de uma comédia de boulcvard.
Jorge
Igual à merda francesa da época!
E a prova de que O Indesejado
é o oposto da coisa do Dantas
é que A Ceia foi a peça portuguesa
mais representada em todo o lado
aqui e lá fora, no Brasil e por essa Europa
até à Suécia! Só faltou darem-lhe o Nobel.
Enquanto que O Indesejado
está e estará por esgotar.
José
Ainda! Há quantos anos já?
Jorge
Há dezassete, meu caro José! E você sabe
que a primeira edição foi de quinhentos exemplares?
Não é para desanimar?
José
Não, porque teatro aqui só a revista.
Jorge
Ou o Dantas, meu caro.
Quinhentos exemplares!
José
Realmente! Já nem me lembrava.
Jorge
E ainda por cima confundirem
uma tragédia cm verso branco como a minha
com essa comédia em rimas mais que reles,
certinhas, bem medidas, dc meia tigela,
sem sombra de poesia, nem um cheiro.
José
Olhe,Jorge, não desanime,
A Ceia não é tão má assim!
Jorge
Não é tão má? É banal! E tanto mais
que os indigestos versos dela eram
todos muito rimados em rimas baratas.
O Indesejado, pelo contrário,
é verso branco,jogando verso a verso
com a proximidade de um metro certo
e fugindo desse metro certo,
linha após linha.
José
Pois, catnbéni me servi disso
para traduzir o Assassínio.
Jorge
Eu sei, e nessas artes é que o nosso Eliot
não tinha quem lhe chegasse aos calcanhares.
José
Voce chegou e sobrou, e se o seu Indesejado
tem poucas runas consoantes,
é rico em rimas toantes
e ainda mais rico em ritmo,
não lhe faltando decassílabos.
Jorge
Já o Garrett garantia que o decassílabo
era o único metro a que a nossa língua
dava a força suficiente e a harmonia
para soar bem sem precisar de rimas.
José
São os decassílabos d’Os Lusíadas
que a todos nos entraram no ouvido.
Jorge
Mas os meus são decassílabos disfarçados
como os da tragédia clássica e não clássica,
só com aquele ritmo destinado
a dar à fala a fluência do teatro,
enquanto o Dantas neo-clássico
rima que se farta, rima de mais.
José
Deixe lá o Dantas,Jorge, não lhe ligue.
Jorge
Eu não ligo, só me irrito com os poetastros que poetizam
ejulgam, corno o grande público, que aquilo é que é poesia.
O Indesejado recorre ao verso heróico, às formas nobres,
para dizer o terra-a—terra, o pobre, e isso para mim é a poesia.
A conversa não ficou por aqui, eu é que a interrompo por tudo ter limites. Se nem sempre algumas destas frases foram ditas por quem aqui as diz, podiam tê-lo sido. Chegou a hora, aliás, de confessar que — como para Valéry só o primeiro verso era dado, o resto era construído —sóo início do diálogo se deu na vida dita real, o resto foi por mim fielmente inventado.
Quando José Blanc de Portugal mc ouviu ler as «suas» deixas, confirmou o teor deste encontro com um leve reparo: por não desgostar d’A Ceia dos Cardeais, não se lembrava de lhe ter feito reticências, Logo ali resolvi respeitar as regras do verosímil e transferi as críticas da boca dele para a do Jorge, mais impaciente. A tanto se me atreveu a irreverente reverência pelos simposiantes daquela foz do Tejo de há trinta anos.
Misturando em doses razoáveis a liberdade ficcional com o exemplo do Indesejado — não me refiro só à peça, refiro-me sobretudo ao autor dela — o diálogo saiu-me em verso livre. Oxalá a generosidade do seu espírito não me leve isto a mal. Com a benevolência do autor de Parmia Naturalia julgo poder contar.
Almeida Faria
Ode para o futuro
Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagorosos. Música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distância.
Éramos livres. Falávamos, savíamos,
e amávamos serena e docemente.
Uma angústia delida, melancólica,
sobre ela sonhareis.
E as tempestades, as desordens, gritos,
violéncia, escárneo, congusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as prisões,
as mortes, o amor vendido,
as lágrimas e as lutas,
o desespero da vida que nos roubam
- apenas uma angústia melancólica,
sobre a qual sonhareis a idade de oiro.
E, em segredo, saudosos, enlevados,
falareis de nós - de nós! - como de um sonho.
Oda para el futuro
Hablaréis de nosotros como de un sueño.
Crepúsculo dorado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. Música suave.
Pensamiento claro. Sutiles sonrisas.
Paisajes resbalando en la distancia.
Éramos libres. Hablábamos, sabíamos,
y amábamos serena y dulcemente.
Una angustia rota, melancólica,
sobre ella soñaréis.
Y las tempestades, los desórdenes, gritos,
violencia, escarceo, confusión odiosa,
primaveras muriendo ignoradas
en las pendientes vecinas, las prisiones,
las muertes, el amor vendido,
las lágrimas y las luchas,
la desesperación de la vida que nos roban
-solo una angustia melancólica,
sobre la que soñaréis la edad de oro.
Y, en secreto, nostálgicos, elevados,
hablaréis de nosotros -¡de nosotros!— como de un sueño.
Metamorfose
Para a minha alma eu queria uma torre como esta,
assim alta,
assim de névoa acompanhando o rio.
Estou tão longe da margem que as pessoas passam
e as luzes se reflectem na água.
E, contudo, a margem não pertenece ao rio
nem o rio está em mim como a torre estaria
se eu a soubesse ter...
uma luz desce o rio
gente passa e não sabe
que eu quero uma torre tão alta que as aves não passem
as nuvens não passem
tão alta tão alta
que a solidão possa tornar-se humana.
Metamorfosis
Para mi alma querría una torre como ésta,
así de alta,
así de neblina junto al río.
Estoy tan lejos de la orilla que la gente pasa
y las luces se reflejan en el agua.
Y a pasar de todo, la orilla no pertenece al río
ni el río está en mí como estaría la torre
si supiese poseerla...
una luz baja hacia el río
la gente pasa y no sabe
que quiero una torre tan alta que las aves no la alcancen
las nubes no la alcancen
tan alta tan alta
que pueda la soledad hacerse humana.
Traducción: José Ángel Cilleruelo
Isabel Coutinho - Ciberescritas
Jorge de Sena (1919-1978) partiu para o exílio há 50 anos por causa da ditadura e nunca mais regressou. Foi estando em Portugal de visita. Foi publicando livros e colaborando em revistas. Morreu no dia 4 de Junho de 1978, em Santa Bárbara, na Califórnia, EUA, onde ficou sepultado no cemitério do Calvário. Hoje, a partir das 10h, na Basílica da Estrela, em Lisboa, decorrerá uma cerimónia de homenagem ao poeta, ficcionista, dramaturgo, ensaísta, crítico e tradutor. Um representante da sua família, o ensaísta Eduardo Lourenço, o ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, e o ex-Presidente da República António Ramalho Eanes, que era seu amigo, irão evocar o poeta. Segue-se a trasladação dos seus restos mortais para o Cemitério dos Prazeres.
Mécia de Sena, a viúva do escritor, não virá a Lisboa “por causa do impacto” que lhe causa a cerimónia. Mas a partir da sua casa em Santa Bárbara, na Califórnia, disse que o regresso de Jorge de Sena à sua pátria tem um significado muito importante para ela bem, como teria tido para ele. “Espero que seja o passo decisivo para o reconhecimento do meu marido como escritor e como cidadão”, afirmou, lembrando que a iniciativa da trasladação foi do ministro da Cultura, com a qual concordou imediatamente. “Quando o meu marido morreu, eu tive o desejo de o mandar para Lisboa, mas à última hora, apesar do empenho do general Ramalho Eanes, o Presidente da República na altura, não se processou a trasladação...” Continuar leyendo