«Ao olhar sem fim o sucessivo» – Homenagem a Sophia
03 Julho 2009

“Se tivesse sido membro da Academia Sueca, teria votado no nome de Sophia para Prémio Nobel em vez de Saramago” disse, não uma nem duas vezes, José Saramago, admirador de Sophia de Mello Breyner Andresen sobre quem escreveu também que havia alcançado como poeta a perfeição e a beleza da linha pura. Faz cinco anos que [...]Mais...
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As obras avançam na Casa dos Bicos
02 Julho 2009

A fachada da Casa dos Bicos já foi remodelada: não se lhe tiraram anos, é a linda senhora que sempre foi, retiraram-se-lhe simplesmente algumas manchas que não a faziam mais bela. E que lhe apagavam o brilho que é seu. O brilho que também as pedras, como os humanos, podem ter do primeiro ao último [...]Mais...
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Avançando a passos largos para o final deste ano lectivo, realizaram-se nas duas últimas semanas mais três ateliers A Maior Flor do Mundo. Os dois primeiros levaram-nos ao centro do país, a Condeixa-a-Nova e a Montemor-o-Velho. Em ambos os casos, as actividades tiveram lugar nas respectivas Bibliotecas Escolares, tendo como participantes, e no total, seis turmas do [...] mais

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O programa Página 2 da televisão Espanhola emitiu um programa sobre "A Viagem do Elefante". Publicar neste blog o link para ver o programa é um convite para que se veja e uma decidida recomendação... ver vídeo

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A Maior Flor do Mundo

A Viagem do Elefante – Rota portuguesa - Junho 2009

A Viagem do Elefante: Rota portuguesa

O elefante gostou do que viu e fê-lo saber à companhia, embora em nenhum ponto o itinerário que escolhemos tivesse coincidido com aquele que a sua memória de elefante zelosamente guardava. Que haviam, disse, ele e os soldados de cavalaria, subido para o norte quase a pisar a linha da fronteira, por isso eram os caminhos tão ruins. Comparada com a viagem de então, esta foi um passeio: boas estradas, bons alojamentos, bons restaurantes, o próprio arquiduque, ainda que habituado aos luxos da Europa central, teria ficado surpreendido. A expedição foi para trabalhar, mas disfrutou como se andasse de férias. Até os sofridos câmaras, obrigados a carregar com equipamentos de sete quilos ao ombro, estavam encantados. O interessante é que nem os nossos amigos, nem os jornalistas conheciam os lugares que visitámos. Melhor para eles, que dali levaram muito que contar e recordar. Começámos por Constância, onde se crê que Camões viveu e teve casa, de cujas janelas terá visto mil vezes o abraço do Zêzere e do Tejo, aquele suave remanso da água na água capaz de inspirar os versos mais belos.

Dali fomos para Castelo Novo para ver a Casa da Câmara, do tempo de D. Dinis, e o chafariz joanino que lhe está pacificamente encostado. Vimos também a lagariça, essa espécie de dorna ao ar livre para a pisa das uvas, cavada na rocha bruta em tempos que se acredita serem os da pré-história.

Dormimos no Fundão, terra de cerejas por excelência, e na manhã seguinte ala para Belmonte onde nasceu Pedro Álvares Cabral, direitos à igreja de S. Tiago, da minha particular devoção. Ali está uma das mais comovedoras esculturas românicas que existem na face da terra, uma pietà de granito toscamente pintado, com um Cristo exangue deitado sobre os joelhos da sua mãe. Ao pé desta estátua, a célebre pietà de Miguel Ângelo que se encontra no Vaticano não passa de um suspiro maneirista. Não foi fácil arrancar o pessoal à extática contemplação em que havia caído, mas lá os conseguimos levar aliciando-os com o enigma arquitectónico de Centum Cellas, essa construção inacabada cuja problemática finalidade foi e continua e ser objecto das mais acaloradas discussões. Seria uma torre de vigia? Uma hospedaria para viajantes de passagem? Uma prisão, embora o neguem as rasgadas janelas que subsistem? Não se sabe.

Saciada a fome de imagens, o destino seguinte seria Sortelha, a das muralhas ciclópicas. Ali nos caiu em cima uma trovoada como poucas, relâmpagos em rajada, trovões a condizer, chuva a cântaros e granizo que era como metralha. Não chegámos a beber o café, a corrente eléctrica sumira-se. Uma hora foi o que demorou o céu a escampar.

Ainda chovia quando entrámos no autocarro, a caminho de Cidadelhe, sobre o qual não escreverei. Remeto o leitor interessado e de boa vontade para as quatro ou cinco páginas que lhe dediquei na Viagem a Portugal. Os companheiros arregalaram os olhos perante o pálio de 1707, depois foram ver a aldeia, os relevos nas portas das casas, os caixotões da igreja matriz com retratos de santos. Vinham transfigurados e felizes.

Agora só faltava Castelo Rodrigo. O presidente da câmara municipal de Figueira de Castelo Rodrigo esperava-nos na ponte sobre o Côa, a pouca distância de Cidadelhe. De Castelo Rodrigo eu conservava a imagem de há trinta anos, quando lá fui pela primeira vez, uma vila velha decadente, em que as ruínas já eram só uma ruína de ruínas, como se tudo aquilo estivesse a desfazer-se em pó. Hoje vivem 140 pessoas em Castelo Rodrigo, as ruas estão limpas e transitáveis, foram recuperadas as fachadas e os interiores, e, sobretudo, desapareceu a tristeza de um fim que parecia anunciado. Há que contar com as aldeias históricas, elas estão vivas. Eis a lição desta viagem.

José Saramago

A Viagem do Elefante: Rota portuguesa

Caderno de Saramago: o livro do blogue

Há que ver as coisas em que se mete este Saramago: pois não é que nos vem agora, na sua idade, com essa cara de homem sério, duro, de pessoa que não está para brincadeiras, com um blogue diário? Será que este homem não tem cura e necessita estar todo o dia maquinando na sua máquina? Outro livro de Saramago? Mas se ainda há tão pouco tempo apareceu “a Viagem do Elefante”, vamos, há tão pouco que ainda anda por aí, inclusive caminha nesta mesma página, e o faz em diferentes idiomas, embora não pareça ter chegado a Viena, donde creio que o querem meter numa ópera, já veremos…

Ou seja, este Saramago não pára, escreve à velocidade que outros necessitam para ler, de modo que vamos encontrar-nos de novo, escritor e leitores, por agora em Portugal, a partir de 23 de Abril, Dia Mundial do Livro, em Maio em Espanha nas edições em catalão e castelhano, paulatinamente nos países americanos que se expressam em português e espanhol, e, para depois do Verão, primeiro em Itália, a seguir na Inglaterra e nos Estados Unidos, e logo em quantos idiomas ou países forem levantando a mão. Seremos muitos os amigos que nos encontraremos lendo este novo livro, que não é romance, nem obra de teatro, nem poesia, género que o próprio Saramago diz já não cultivar, embora os que o lêem tenham dúvidas, porque poesia, e muita, vemos nas páginas que vamos incorporando à nossa experiência, seja qual for o título que tenhamos nas mãos. Inclusive neste livro, aparentemente jornalístico, livro de crónicas tantas vezes ditadas pelo que se passa no mundo, se encontra poesia, momentos de extraordinária beleza que quase nos sufocam ou nos fazem levantar a vista e respirar, porque não é o mesmo, de verdade não é o mesmo, ler um comentário da noite em que Obama ganhou as eleições nos Estados Unidos escrito por alguém que trata as palavras a pontapé, que tem uma percepção do mundo limitada e talvez demasiados recados que cumprir ou modas que seguir, que ler quem escreveu com o coração emocionado, sem censuras nem impedimentos, com a liberdade conquistada em 86 anos de vida e com a cabeça, e que cabeça, sempre em movimento, adiantando-se vários passos porque ir à frente é um privilégio que alguns têm e certos “alguns” compartilham, graças lhes sejam dadas.

Caderno de Saramago não é um livro de crónicas jornalísticas, é um livro de vida. Aí Saramago conta cada dia o que o motiva, o que o indigna ou o que lhe apetece. Comenta o minuto, mas também recupera uma declaração de amor a Lisboa. Fala dos seus autores preferidos, com humor define as calças sempre impecavelmente vincadas de Carlos Fuentes, mas também o universo turbulento dos turcos de Jorge Amado descobrindo a América. Fala de Obama, sim, mas também de Bush, e do Papa, e de Garzón, e de Pessoa, e de Sigifredo López e Rosa Parks, de tantos lutadores pacíficos que conseguiram mudar o mundo ou o estão tentando, embora haja quem prepare receitas para matar um homem ou para condená-lo à fome, à miséria, a um estádio em que o humano acaba por desaparecer. E Saramago emociona-se com gente, com amigos, com pormenores… São seis meses de vida em que Saramago opta e conta com pinceladas que bem poderiam ser versos, reflexiona na companhia de quem o lê, propõe e não se cansa. Seis meses de cartas inteligentes para leitores inteligentes, sem artifícios e com tudo o que tem para dizer. Porque Saramago não se cala, expõe, entra, derruba montanhas ou aponta com o dedo se nesse dia não pode com a escavadora, ou são necessários mais para manejá-la, então diz que essa encosta é um impedimento, uma rémora, um obstáculo na vida de muita gente e avançamos para a deitar abaixo porque poderemos, se somos muitos. Fala das mulheres, revela-se, indigna-se, emociona-se. E faz até uma declaração de amor a Rita Levi-Montalcini, que este Abril cumpre 100 anos…

Sim, Saramago está numa boa maré e oferece-nos um novo livro. Não serei eu quem o perca. Não mo poderia perdoar nunca. E, a propósito, digo: Se Saramago o escreveu, vamos lê-lo. Ao fim e ao cabo escreve para nós, seus amigos, seus leitores, os que sabemos que somos singulares e donos do nosso pensamento e da nossa expressão. E Saramago é o porta-voz.

Pilar del Río

A Casa dos Bicos - Lisboa - Fundação José Saramago

bicos

A Casa dos Bicos, edifício que Brás de Albuquerque, filho do vice-rei da Índia Afonso de Albuqueque, mandou construir em 1523, após uma viagem a Itália, e que teve como modelo o Palácio dos Diamantes, em Ferrara, receberá em 2009 a Fundação José Saramago. Embora seja legítimo supor que o seu primeiro proprietário gostaria que a sua casa tivesse o mesmo nome, a opinião dos lisboetas de então foi diferente. Onde alguns quereriam ver diamantes, eles nâo viam mais que bicos de pedra, e, como o uso faz lei, de tanto lhe chamarem Casa dos Bicos, dos Bicos ficou e com esse nome entrou na História.

Ao longo dos tempos a casa serviu a distintas funções, tanto privadas como públicas, sendo mesmo utilizada, durante algum tempo, como armazém de bacalhau. Até 2002 albergou a Comissão dos Descobrimentos, entidade que coordenou as actividades com que se comemoraram as viagens portuguesas, marco fundamental no conhecimento do mundo tal como hoje o vemos.

A Fundação José Saramago pretende que os três primeiros pisos deste edifício emblemático sejam espaços públicos em que se celebrem exposições, recitais, conferências, cursos, seminários, de modo que as suas dependências sejam colocadas ao serviço da cultura. A Casa ficará aberta ao público, pondo assim termo a um largo período em que nem os lisboetas nem os turistas podiam apreciar os vestígios de épocas passadas que se albergam no piso térreo: um conjunto de estruturas que remonta às primeiras ocupações do espaço, um troço importante da muralha fernandina, tanques romanos (cetárias) de base quadrangular, destinados à salga e conserva de peixes (o famoso garum), e por restos de cerca moura… 

A Fundação José Saramago encarregar-se-á da manutenção da Casa. O edifício é de propriedade municipal, cedido, mediante protocolo assinado em Julho de 2008, à Fundação por um período de 10 anos. Pretende-se que em Junho tenha terminado a primeira fase de restauro e possa, assim, dar-se início ao seu uso público.